Quando eu pensar em coragem, lembrarei de alguém que nunca conheci — apenas o traço de sua letra e um recorte do seu pensamento. O resto: imaginação minha. Uma mulher? Em torno dos seus 50 anos. Registrando o desejo realizado. Uma mulher desejante.
Antes dos meus 20 anos, não poderia ver uma pequena falha em um livro, que um desconforto tomaria conta de mim e precisaria trocar por um exemplar perfeito. Com o tempo, essas falhas – não coincidentemente – passaram a incomodar menos. O que eu chamava de “falha” era uma marca, quando não a do outro, a minha própria. Uma hora ou outra, tentando escapar do erro, tropeçaria em mim mesma e aprenderia que errar não precisaria ser tão ameaçador.
As marcas passaram a me fascinar. As antiguidades. Os grifos. Os rabiscos. Os rastros de alguém que ali passou — e ficou. Como este livro. Queria uma edição antiga, com as marcas da vida percorrida. Só não esperava me deparar com uma dedicatória de 1972 e que carregaria ela desde então. Foi como se conversássemos e ela me contasse algo sobre a sua – desconhecida – vida percorrida.
Na mesma semana, ao entrar em contato com o sebo, uma moça me atendeu e, após informar não ter registros, me agradeceu, dizendo: “quem sabe essa frase também não foi para mim”. Alguns meses depois, uma enfermeira me atendeu em uma clínica e, ao saber que eu estava me formando, falou de uma prova de residência e, quase que em um tom de insistência, me passou todas as informações para eu ir atrás.
No dia da prova, reescrevi a dedicatória em uma outra folha com a data atual e a coloquei junto da antiga.
Ao abrir novamente o livro, as marcas daquela vida percorrida já se misturam com as minhas. Um ano após a chegada do livro, eu estaria iniciando a minha residência. E hoje, um ano após a conversa com a enfermeira, vivencio as descobertas de uma profissão que me ensina, todos os dias, sobre o ser humano e as suas marcas.
Sobre a mulher da dedicatória, a moça do sebo e a enfermeira:
Sigamos desejantes! Carregando as marcas que ultrapassam o tempo, o efeito das palavras e as possibilidades do encadeamento de uma vida até outra — que transformam, misturam e criam outras realidades.